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                     FICÇÃO CIENTÍFICA -12-    

                     

PLANETA DESCONHECIDO  A SURPRESA FORÇA DESCONHECIDA

                                             PLANETA DESCONHECIDO

                                                            Por Armando de Oliveira Caldas

         No planeta Natus, escolhido unicamente para centralizar o ensino galáctico periférico, milhares e milhares de centros de treinamento científico se espalham pela superfície. Grandes cabeças recebem conhecimentos do Universo. Formam uma população de quase quinhentos milhões de alunos, vindos de mundos externos altamente civilizados.

       Baixos, altos, cabeças redondas ou afuniladas, de ambos os sexos compõem o cenário. Altas e belas montanhas parecem proteger magníficas instalações.

       Dois sóis e quatro luas fornecem claridade quase constante, mantendo clima agradável e confortante.

      Águas cristalinas, jardins e o colorido das vestimentas propiciam espetáculo a parte.

       Bem, a finalidade desta visita não é turística, portanto deixemos de lado a beleza do astro. Nosso objetivo é participar de uma aula no Ensino Avançado 2800, Região Geográfica 500 do Hemisfério Sul. Especializado no conhecimento de planetas do setor 970.

       No vasto salão, repleto de equipamentos, os alunos dispostos em fileiras de assentos aguardam o início.

       Num piscar de olhos são transportados para a dimensão da realidade virtual. Flutuam pelo espaço, em fração de segundos alcançam estrelas e planetas. Observam a vida em cada um, enquanto explicações parecem vir do escuro sideral:

       --- Este tem o nome Talanto, no idioma nativo. Logo deverá fazer parte da Federação, já começaram os primeiros contatos. Vejamos seus habitantes e o modo de vida.

       Assim, um após outro, o processo se repete. Por vezes, durante comentários demorados as viagens se prolongam no infinito imaginário. Astros inabitados, mas em condição de suportar a vida também são mostrados.

       Catalogado no superprocessador, a regra da existência para integrar o grupamento superior é única. Para participar, o avanço tecnológico se evidencia, mas muito mais importante é o alcance do nível da convivência interna.

        A voz, sempre presente, continua:

        --- A vida é dádiva celeste. Durante sua permanência no corpo, a absorção do conhecimento é fator primordial para o aprimoramento do espírito. Este fará parte do todo e se associará à inteligência universal. Princípio básico para o acolhimento em nosso meio.

        --- E quanto às espécies não incluídas? Perguntou um dos ouvintes.

        --- Caso estejam em estágio primitivo, apenas são considerados em evolução.

        Por outro lado, detendo alta técnica, acima das fases iniciais, mas continuando individualistas e mantenedores de práticas primitivas, permanecerão isolados.

        Nesta visão de vários mundos, conhecerão violência, absurdas guerras, genocídios, má distribuição da produção, fome, miséria e outras arbitrariedades. Planetas que apresentam algumas dessas situações dificilmente farão parte da Federação. Sempre os visitamos, apenas para observá-los, nunca para contatar seus habitantes. Se tentássemos, provavelmente procurariam nos destruir. Estão classificados de 1 a 10, quanto ao grau de aceitação. Dentro do setor 970, duzentos se enquadram no grupo de indesejáveis, cotados na posição seis para oito. Talanto já atingiu o grau nove.

        Recentemente encontramos um pequeno mundo, com capacidade técnica bastante elevada. Já enviam sondas espaciais e logo estarão chegando a alguma estrela. No entanto, quanto a sociedade, ficamos horrorizados com o que vimos, tantas as barbaridades, é o único de cotação UM.

       --- UM! Deve ser monstruoso o que lá acontece. Gostaria de vê-lo. Comentou alguém da seleta platéia.

       --- Então vamos até lá. Fica bem próximo do espaço intergalático na área branca do nosso setor. Sua estrela cobre nove planetas, é o terceiro das órbitas e único habitado.

       A viagem demora alguns instantes. De repente uma brilhante estrela surge, mostrando sua família. Um bonito astro azul se agiganta, povo e belas paisagens negam as palavras do professor.

       --- Mas tudo é muito bonito Professor. Casas e prédios elegantes, belíssimos campos, músicas, pessoas se divertindo.

       --- Espere um pouco, estamos chegando num planeta de contrastes.

       Dissimulação, omissão, falsidades imperam e comandam as massas. A maior parte da evolução técnica provém da ganância de lucros.

       Enquanto o professor apresenta informações, estas parecem não coadunar com cenas do cotidiano. Afinal, divertidos jogos, músicas, festas, belas praias lotadas e muito mais, não combinam com as afirmações.

        Antes que interpelassem, são direcionados para moderno e atraente local.

        Sólida construção, de linhas arquitetônicas invejáveis salientando-se sobre uma região árida. Guardas uniformizados, veículos militares e aparatos de segurança controlam a entrada das pessoas. O grupo não se detém, atravessa pavilhões sem maiores atenções, alcança um elevador e desce.  Alguns instantes depois, à frente deles, num gigantesco cômodo, encontram inúmeros cilindros com frentes ovais e propulsores na parte traseira.

        Os estudantes olham aqueles grandes tubos indiferentes, sem entenderem o significado da visita. Alguns segundos de silêncio e a voz do professor:

        --- Sabem o que são?

        --- Naves individuais? Respondem perguntando.

        --- Não! São armas, são bombas desintegradoras suficientes para destruírem toda vida deste planeta. Dominam o átomo, mas ao invés utilizarem-no para o bem, noventa por cento da sabedoria se destina para o que estão observando.

         Verão daqui para frente o outro lado dos humanos.

         O horror desfila diante dos olhares apavorados. Droga e seus efeitos, banditismo, miséria e a fome; guerras, ataques aéreos, extermínio de semelhantes e massacres; má distribuição da produção, ganâncias, manipulações financeiras; desrespeitos às leis, ao Criador e muito mais.

         Diante do que viam, a aula se tumultua, tanto, que o líder interrompe:

         --- Professor, gostaríamos que encerrasse o assunto, o que vimos já é suficiente. Se fosse possível mudaríamos a classificação, merecem grau inferior a UM.

        --- Antes de desligar, diga-nos o nome desse mundo.

        --- Os nativos chamam-no TERRA.

                 

 

                                             A SURPRESA  

                                     Por Armando de Oliveira Caldas

         As chuvas haviam castigado as estradas do Sul de Minas, crateras ficaram visíveis em todas as extensões das rodovias. Foi nessa época que resolvi fazer uma viagem até Poços de Caldas.

       Estava irritado com os solavancos e com os estragos que provavelmente causavam ao meu veículo. Arrependido de ter saído de casa, procurava me acalmar. Estava nessa tensão, quando de repente, senti-me leve, as rodas pareciam não sofrer atrito, a minha frente descortinava-se uma muito larga rodovia com seis vias.

       Atônito, sem saber o que estava acontecendo, continuei a dirigir. Pensava:

       --- Talvez fizeram uma nova estrada. Faz tempo que não vou a Poços.

       Meu carro era o mesmo. A gasolina estava na reserva, precisava encontrar um posto para abastecer.

       Enquanto visualizava  o panorama, começava a ficar assustado, construções bastante estranhas margeavam o caminho. Placas com nomes de lugares que nunca havia ouvido falar. O asfalto perfeito parecia um tapete macio. Autos passavam em incríveis velocidades. O que via era espantoso, portanto devia estar sonhando.

       Por várias vezes bati no meu rosto. Olhava o velocímetro e via que estava marcando cento e vinte, no entanto todos me ultrapassavam.

       Como não encontrava nenhuma construção que se parecesse com um Posto, parei no primeiro lugar mais ou menos semelhante.

       Mal saíra do veículo, voltei apavorado. Ia ligar a chave, mas algo me alcançou. Uma bola no formato de um olho, levitando se aproximou e uma voz saindo dela me perguntou:

        --- Deseja alguma coisa?

        Não sabia  o  que dizer. Com medo, mas curioso, respondi com outras perguntas:

        --- O que está acontecendo?  Renovaram a estrada? É um sistema moderno que foi instalado?

       --- Você está no sistema viário sul.  Já foi criado a duzentos anos. O sistema não é moderno, é uma das poucas vias de superfície.

       --- Preciso de gasolina, como posso obter?

       --- Gasolina?  Já foi  extinta,  só é utilizada como solvente nas indústrias. 

       --- Estou muito confuso. Disse-me que ha duzentos anos já existe a rodovia! Agora, que não existe mais gasolina! De onde vim ainda hoje, ela se encontra em qualquer lugar.

       --- Não é possível. Existe algo errado. A única explicação é você ter entrado numa dobra do tempo e está agora em 2.316. É raro acontecer, mas é a terceira vez que isto ocorre neste lugar.

       Mais calmo, conversando com aquilo como se fosse uma pessoa, acabava por dar conta do que havia acontecido. Então havia entrado no futuro, mas como?

        Não importava o porquê, era a realidade, quase desmaiei quando percebi. Refeito do susto, perguntei ao olho:

       --- O que aconteceu aos outros?

        --- Que saiba, depois de algum tempo desapareceram simplesmente, talvez tenham voltado ao lugar de origem.

        --- Meu dinheiro deve ser diferente agora, como vou sobreviver?

        --- Procure na próxima cidade o CNA.

        --- CNA?  Não tem  como conseguir mesmo um pouco de gasolina?

        --- CNA quer dizer Centro Nacional de Assistência. Quanto a gasolina, temos um pouco para outros fins, vou abastecer seu veículo.

        Quando saí daquele local, estava consciente do que havia acontecido, portanto mais nada me surpreenderia.

        Não demorou, vislumbrei a grande metrópole. Acompanhei  moderníssimos transportadores, seguindo-os até o centro, mas não rodei muito, logo um olho me mandou parar:

       --- Você está poluindo o ambiente, não pode dirigir com seu carro.

       Estava adivinhando.  Parei num local que me pareceu próprio e continuei a pé. Perguntando para transeuntes cheguei ao CNA.

       Entrei no local, pensava encontrar lotado, mas estava vazio. No piso vitrificado uma seta indicava a direção a tomar, a segui e acabei ficando frente a um visor. Logo uma voz me orientou:

        --- Coloque a mão sobre a placa a sua direita.

        Atendi, meu rosto apareceu no visor a minha frente.   

        E a voz que vinha daquele sistema continuou:

        --- Conte toda sua história, sem omitir detalhes.

       Contei tudo que havia me acontecido pensando que não iria receber qualquer ajuda.

       Terminada a narrativa, apareceram  pessoas  para  me receber. Sem mostrarem nenhuma perplexidade me fizeram passar por uma triagem completa, recebi dinheiro plástico, alimentação e um tipo de relógio para me comunicar com o Centro em caso de necessidade. Bem a vontade, conversei com aqueles atendentes da época, chegando a familiarizar-me com alguns deles. Foi então que fiquei sabendo: O Brasil liderava as Nações, éramos o País mais rico, a pobreza praticamente não existia. Viajávamos pelo espaço, trazíamos minérios de asteróides e possuíamos naves que se dirigiam para as estrelas. Os Estados Unidos e a Europa haviam entrado em decadência devido a preconceitos internos. A união racial do nosso dera certo, tanto que o próprio centro raramente era utilizado.

        Naqueles dias vivi numa época ainda não sonhada, ganhara uma segurança muito grande.

        É verdade que ninguém me dá fé quanto faço esta narrativa, mas a realidade é que passei por tal experiência.

        Como voltei?

        Estava já  me  habituando  com a estranha modernidade, quando certo dia resolvi procurar meu carro. Encontrei-o no mesmo local. Foi apenas entrar dentro dele e colocar a mão sobre o volante para tudo se dissolver. Vi-me novamente na estrada esburacada e muita conhecida, no mesmo local onde tudo havia mudado.

        Não continuei o caminho, retornei o carro e voltei para minha casa.

        Até hoje  não compreendo o que me aconteceu. Sei apenas que estive por algum tempo no futuro, disto tenho certeza, porque ainda guardo o relógio que ganhei do CNA.

 

                          

 

                                         FORÇA DESCONHECIDA

                                           Por Armando de Oliveira Caldas

          Luti brincava sobre a grama recém nascida.  Calima com seu belo corpo, quase desnudo, se aconchegava ao peito do forte homem. Este fora um eminente cientista, que lidara com aparelhagens sofisticadas, de repente encontrava-se naquele lugar ermo, vivendo de peixes de uma lagoa próxima e de alguns vegetais da flora ainda muito rarefeita.

       Sentados sobre a pedra que lhes servia de poltrona, observavam o filho, que nos seus quatro anos, sequer poderia imaginar o sacrifício deles para que sobrevivesse. Atrás, a gruta,  que lhes servira abrigo e que se transformara em casa, verdadeira fortaleza.

      Joab por muitas vezes acordava sobressaltado, pesadelos acompanhavam seus sonhos. Não conseguia tirar da visão as horríveis cenas.

       Não conseguira  nada salvar, nenhuma ferramenta, por mais rudimentar que fosse, mal teve tempo de acudir a esposa e o menino.

        Há tempos  estavam naquele lugar, as roupas transformaram-se em trapos, a ponto dos órgãos genitais ficarem a mostra. A esposa partilhava do sofrimento, também fora uma cientista e trabalhara com o marido no Centro de Pesquisas Biológicas. No mesmo local a criança, na ala de manutenção infantil, recebera excepcionais cuidados.

        Depois de anos desenvolvendo análises, por merecimento, obtiveram um período de folga, que aproveitaram para conhecer outros lugares. Estavam em viagem quando a catástrofe aconteceu.

        --- Joab,  o  que  será  de nossa vida? Perguntou Calima.

        --- Estamos presos, temos que nos acostumar. É o reinicio. Cometemos grande erro, fomos longe demais.

        --- Agora é tarde para lamentações. Ainda temos a felicidade de estarmos vivos, ELE nos poupou.

        Estamos conseguindo nos manter, mas sem panela, sem nada para cozinhar o alimento, é muito difícil. Comentou a moça, com o semblante tristonho e marcado pelo sofrimento.

       Joab, pensativo como sempre, com olhar fixo no horizonte, ouviu a esposa e observou:

        --- Você tem razão, fico perdido em divagações e acabei esquecendo de improvisar meios para uma melhor sobrevivência.

        A terra ainda está muito úmida, acredito que deva encontrar argila própria para fabricarmos alguns objetos. Amanhã vou procurar.

        Nesse meio tempo, Luti, vendo um pequeno réptil saltitante, correu para a mãe e os três adentraram pela grande formação rochosa, onde o fogo obtido pela fricção de pedras mantinha-se aceso.

        No dia seguinte, um sol alegre acalentava a fria manhã. Joab munido de um saco de fibras vegetais colocou-se a caminho, vasculhando áreas próximas. Como não encontrava o material, foi embrenhando-se rumo ao que lhe era desconhecido. Pela primeira vez se afastava tanto do abrigo, depois de quase dois anos.

        A solidão, o silêncio quebrado apenas pela brisa ou por raros pássaros foi lhe permitindo ouvir aos poucos o barulho longínquo do mar. Isto lhe fez esquecer seu objetivo e caminhar na direção do murmúrio. Andou muito, sempre cuidando de marcar a direção de sua “casa”.

        Várias horas o distanciavam da família, quando, após subir uma colina, avistou extensa praia e o oceano a perder de vista, mais ainda, sob tosca cobertura perto das águas, dois homens e duas mulheres.

        Apressou-se e, correndo foi na direção do grupo. Extenuado, agitado, quase não crendo no que via gritou:

        --- Sou Joaaab! Quem são vocês?

        O grupo, sobressaltado,  olhou  para aquele homem seminu que parecia desequilibrado, depois o mais velho respondeu:

        --- Acalme-se homem. Sou Gotan, este é Java. Aquela é minha filha Savina e a outra é minha esposa Judi.

       Judi, vê se encontra algo para este homem vestir!

        Mais aflito do que as pessoas que encontrara Joab quase não se continha. Até então, imaginava não haver mais ninguém.   

        Apreensivo, mas já mais descontraído pela boa acolhida, vestiu indiferentemente as roupas um pouco melhores e perguntou:

       --- Como conseguiram se salvarem?

       --- Talvez da mesma forma que você, depois de muito sofrimento.

       --- Já encontraram outros? Voltou a perguntar o cientista.

       --- Não. Vasculhamos a  região, se existiram cidades por aqui, foram engolidas. Nem escombros, fizemos até uma pequena embarcação com pedaços de madeira. Até onde fomos, tudo está deserto, voltamos então e resolvemos acampar neste lugar. Éramos agricultores, assim, por sorte, tivemos a idéia de mantermos algumas sementes que plantamos mais acima. Estamos sobrevivendo com peixes, frutos do mar e um pouco de cereais. Mas o que o fez nos encontrar?

       --- Saí para procurar uma boa argila para fazer objetos de cozinha, andei muito, depois de horas comecei a ouvir o mar e resolvi continuar.

        Não posso deixar minha mulher e filho sozinho, vou voltar e os trarei, juntos poderemos pensar melhor.

      Depois de conversar com os demais, Joab se apressou em retornar.

        Estava escuro quando entrou pela abertura das pedras. Calima, aflita, correu e abraçou o marido, sua única esperança naquele mundo desconhecido.

        --- Joab, o que aconteceu? Porque demorou tanto? Pelo jeito, nada trouxe.

        --- Você não vai acreditar! Encontrei uma família de sobreviventes, me deram até roupas para vestir. Pretendo levá-la para conhece-la. Tenho esperança de juntarmos força para enfrentarmos nosso destino.

       Calima ouviu a informação, seu rosto, no lusco-fusco fornecido pelas chamas se modificou, a apatia e tristeza desapareceram, os olhos brilharam e um sorriso moldou a linda face da jovem. Daí então, especulou tanto o marido, que após algum tempo lhe disse:

       --- Estou muito cansado, andei muito, amanhã continuaremos a conversa. Preciso recompor as forças, você também precisa descansar para podermos chegar lá.

       O casal não esperou, mal o novo dia chegou, se revezando com o filho e munidos de alimentação seguiram na direção do mar.

       Iniciava-se o primeiro núcleo humano.

       A natureza não  mais  fustigava  o homem, pelo contrário, lhe oferecia todas as condições para a existência. Riachos próximos jorravam água cristalina. Animais domésticos desgarrados apareceram.  Embora até então pensassem estarem sós, outras vidas foram chegando e aos poucos uma pequena vila se formava.

        Meses depois, Joab chefiava a pequena comunidade, se é que assim pudesse ser chamada. Não passavam de cem, mas já era um bom início, embora não dispusessem de qualquer bem que a antiga ciência lhes concedera.

        Sobreviventes da natureza em fúria; no torvelinho que parecia interminável, beberam água suja; na fome, comeram raízes e restos orgânicos, mas a  calmaria  veio e o sol brilhou novamente. Apenas cinco crianças em meio a maioria jovem. Idosos, apenas Gotan, a esposa e mais dois outros.

       Nunca mais veriam aviões, navios ou veículos a correr em estradas bem feitas. Toda técnica desaparecera. Nenhum objeto, mesmo pequeno, que pudesse lembrar o dia a dia de suas vidas fora resgatado. Haviam voltado no tempo e como animais, se debatiam procurando um habitat.

        Mais sobreviventes não  encontraram. Quanto mais se esforçavam, percebiam dificuldades, sentiam-se pesados. Não possuíam meios para saírem daquele lugar, a não ser com os próprios pés. Debalde esperar ajuda, os anos se passaram, por fim tiveram plena consciência de que estavam sós, num mundo novo.

      Joab e alguns poucos sabiam que a natureza fora implacável, que a civilização se extinguira.

       Há tempos esperavam a queda do grande asteróide.  A ciência julgava possuir meios para detê-lo. O planeta ficou dilacerado e a bipartição do astro sufocou a sabedoria humana. O imenso bloco se incorporara ao globo, a ponto de proporcionar aumento gravitacional. Era este o pensamento de Joab, que passava horas observando o mar, enquanto sua mente caminhava para uma explicação do fenômeno. Sentia-se culpado, crédulo de que uma força muito grande, indignada com o que estavam fazendo viera interromper os passos da ciência. Arrependia-se de haver participado da criação de muitas aberrações com a utilização de cobaias humanas. Na sua cabeça uma certeza, Atlântica e Lemúria não mais existiam e com elas o restante dos domínios.

         Deus, não  estava satisfeito com sua criação, vendo que os homens se dispunham a tentar igualá-lo resolvera por um fim na humanidade, limpando a TERRA de toda técnica. Assim o homem retornou ao princípio, mas parece que novamente tende a cometer o mesmo erro.