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               ARQUIVO - 53         

                     

                                                OUTUBRO - 2010

DATAS DO MÊS

03/10 - ELEIÇÕES

12/10 - DIA DA CRIANÇA

12/10 - NOSSA SENHORA APARECIDA

31/10 - ELEIÇÕES - SEGUNDO TURNO

 

                                                

                          NO REINO DO ABSURDO - APENAS UMA FICÇÃO  

                                                                            Por Armando de Oliveira Caldas

      Até  hoje  ainda  não entendo o porquê de certas recordações. Melhor explicando, vivo em dois mundos, um real e outro “imaginário”.

   Sombras de um passado remotíssimo. Lembranças absurdas de fatos ocorridos a milhões de anos.

    Por algum motivo inexplicável, imagens e situações de uma vida passada teimam em permanecer em minha mente.

   Tudo começou quando criança, já tenho setenta, portanto naquela época não havia televisão, tão pouco lia jornais e raramente ia ao cinema. Minha vida era simples e pobre.

   Foi na escola primária, no terceiro ano, que tive a primeira experiência.

   Certo dia, a professora encaminhou a classe para a biblioteca, liberando o manuseio dos livros. Acompanhando os colegas, peguei um volume avantajado cujo nome era “Tesouro da Juventude”, grande e  pesado para os meus dez anos. Coloquei-o numa mesa e comecei a folheá-lo e logo encontrei gravuras de astros.

   Sentia conhecer tudo o que via e muito mais. Dona Catarina vendo-me atento e quieto, muito interessado, me perguntou:

   --- Está entendendo Toninho? Ao que lhe respondi:

   --- Conheço isto, já morei neste. E apontei Marte.

   --- Que imaginação Toninho!  Deu  uma risadinha e foi ver outras crianças.

    O que ela não sabia era que estava sendo sincero.

    Dali em diante, sonhos que não compreendia, impressão de não pertencer ao meio em que vivia passaram a me acompanhar.  Foi assim até completar quinze anos. Depois, resolvi estudar meu próprio caso, utilizando todo tipo de leitura que pudesse me fornecer alguma explicação.

  Esse meu interesse, principalmente sobre astronomia atrapalhou minha adolescência. Piadas de amigos e apelidos acabaram por me fazer uma pessoa calada. Sabia mais do que qualquer pessoa poderia imaginar. No entanto, muito cedo percebi a impossibilidade de  dialogar mesmo com familiares sobre o assunto.

    Agregadas ao meu cérebro, visões de acontecimentos em outros mundos me afloravam como passagens de vida.

   Sabia ter vivido uma tragédia cósmica.

   Deixar minha curta e atual existência sem escrever sobre isto seria um desperdício.

   Durante anos, busquei os pedaços do quebra-cabeça. Assim, pude compor minha história.

    Vivi num mundo alucinante, gélido, de belo apenas o céu a noite, onde Júpiter parecia um grande farol a iluminar a brancura da superfície. Os poucos sobreviventes do planeta estavam no interior das rochas, em abrigos construídos através de algumas gerações.

    Nunca  conheci  meus pais daquele lugar, apenas sei que como a maioria dos povos, acabaram vítimas da glaciação.

   A ciência era adiantadíssima, mesmo assim, com o passar do tempo tornara-se ineficiente frente ao gelo, sempre aumentando. Fora dos abrigos tudo havia se perdido, inclusive a maior parte da tecnologia.

  Nas  poucas  saídas para o exterior, víamos o sol frio. Astro que fora rei em outras eras.

   Sei que era jovem, cheio de vida e imaginativo.

  Nos já antigos labirintos, havia luz artificial, escolas, produção alimentar e de bens. Grupos de cientistas não se davam por vencidos apesar de praticamente esgotados os recursos do conhecimento, mas continuavam a trabalhar para o benefício comum.

    Seja como for a vida seguia o ritmo, até que certo dia o chefe Ravan do setor de sobrevivência a que pertencia convocou reunião geral.

  No salão maior, cerca de mil e seiscentas pessoas se postaram a escuta, na maioria idosos. Raras crianças estavam presentes. Naquela situação, a procriação fora contida.

  Um tanto nervoso, Ravan não esperou muito, diante do silêncio e dos olhares atentos disse:

   --- Tenho uma informação a dar-lhes. Gostaria que fosse boa, mas sou obrigado a dizer-lhes que não é.       

   Acabei de chegar da convenção com líderes de todos os centros de sobrevivência.

    Como sabem, ha dias que me ausentei, estudava com eles uma forma de salvar nossa espécie, mas a conclusão foi a de que o fim está próximo.

    Bem, nem tudo está perdido, não entrarei em detalhes. Uma parcela de nossos jovens será colocada em duas grandes conchas espaciais. Serão direcionadas para Marte. Foram calculados que apenas oito mil, entre homens, mulheres e crianças seguirão nelas. A escolha será automática e imediata. O sistema já está elaborando as relações. De nossa base, sairão cem casais e as crianças.

    Quanto ao restante, não haverá possibilidade para outras saídas. No entanto, ficou decidido colocar em prática o aquecimento artificial de Maldek. Geólogos acreditam na possibilidade de ativar vulcões ou criá-los, como um dos meios de obtenção do calor. Talvez isto nos conceda tempo para permanecermos nos abrigos. Perfuratrizes automatizadas, com bombas serão colocadas em áreas vulneráveis, haverão tremores e o resultado poderá ser temporário, mas existe uma boa possibilidade de ganharmos tempo.

   O interessante em tudo isto, é que me recordo com exatidão daquele pequeno discurso.

   Fui um dos beneficiados e, comigo por afinidade biológica uma bonita moça foi incluída. Seu nome era Naila, não demorou para que gostasse dela.

   Era uma jovem decidida, de feições bem feitas, cabelos negros e terminou sendo minha companheira naquela existência passada.

   Enquanto seguia pelas vias subterrâneas, Naila, como a proteger-se do intenso frio se agarrava a mim, tal qual a maioria dos pares de passageiros. O veículo deslizou por muito tempo, enquanto isto, pensava no futuro. Não fora um aluno aplicado, pouco sabia sobre o espaço.

     Quando chegamos ao centro de triagem, vários dias haviam se transcorrido. O local era bem menos frio e as pessoas ainda viviam em prédios.

    Qual não foi minha surpresa, quando descobri que nada estava pronto, que iríamos trabalhar para a construção das naves.

  Encurtando a história, deixando de lado as inúmeras peripécias dos cinco anos de labor para o envio das peças para encaixe no espaço e o meu romance, o momento do embarque finalmente chegara.

   Nesse período fiquei sabendo que os antigos já haviam estado em Marte, que bases já existiam naquele planeta. Que o sol esquentava planícies, que havia água e vegetação, coisas que não conhecia. Apenas não haviam transferido a população para lá em virtude da pouca força gravitacional, que acabou modificando o físico dos que teimaram em permanecer. Sabia portanto que iria descer numa terra de gigantes, cuja identidade talvez até tivessem perdido. Naila estava apavorada com isto e várias vezes perguntava:

    --- Qual será o tamanho deles? Serão selvagens?

    --- Espero que não. Teremos de enfrentá-los, talvez, como nós tenham mantido os conhecimentos.

  Quando demos conta, já estávamos a bordo dos transportadores e logo dentro do enorme abrigo espacial. Fora o primeiro a deixar o lar.

   Três  mil  casais  entraram no vasto recinto. Dentro tínhamos de tudo, até um certo controle gravitacional. Parecia uma grande bola.

   Durante alguns meses, ficamos a deriva. Nos visores internos o planeta destino começou a aparecer até tomar conta da tela. O tom azul e laranja marcavam a superfície, onde nuvens e água podiam ser notadas. O sol era uma novidade, resplandecente.

   Por descuido dos pilotos, a grande nave foi freada bem próxima da superfície, mas ainda o suficiente para a permanência em órbita. Ali ficou e viria a ser o primeiro satélite do astro.

    Antes de descermos, houve analise dos locais. Sei que foi tentado comunicação eletrônica, sem qualquer resposta. Por fim, após alguns dias entramos nos transportadores acoplados e descemos naquele novo mundo.

    Sentíamos calor e leveza, pisamos na vegetação, acampamos à margem de um riacho, podíamos respirar.

  No céu era possível ver o abrigo que ficara vazio. Permaneceria uma eternidade, como um marco da travessia.

    Realmente  eram  gigantes os homens que nos encontraram. Sem qualquer atitude agressiva, falando nosso idioma, entendendo o acontecido, nos encaminharam para uma boa região.

    Passado algum tempo, a segunda grande nave, bem maior que a nossa também chegara, desta feita orbitando numa distância bem acima, ficou também marcando o firmamento.

    Minha vida ao lado de Naila passara a ser normal, tivemos dois filhos. Um casal muito alto, seria o preço a pagar, embora para eles isto fosse natural.

    Sei que os anos se passaram. Já era bem velho quando uma chuva de meteoros colheu o planeta. Estragos, inundações, mudanças climáticas e terremotos castigaram cidades, devastando muitas regiões.

    Hoje sei o que aconteceu, quando saí de Maldek já estavam iniciando a ativação de áreas vulcânicas. Isto deve ter sido realmente o meio que encontraram para aliviar o frio. As excessivas explosões por certo provocaram reação interna em cadeia, acabando por explodi-lo. O resultado disto é o cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter.

   "E se fosse verdade?"...