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                           ARQUIVO - 31      

                        

 

                  AGOSTO – 2008

                SETEMBRO - 2008

 

                 OUTUBRO - 2008

               

                NOVEMBRO - 2008

 

                DEZEMBRO - 2008

 

NOTA: POR MOTIVO ALHEIO À NOSSA VONTADE, AINDA EM DEZEMBRO DEIXAREMOS DE ATUALIZAR NOSSO SITE. 

PEDIMOS O FAVOR DE UTILIZAREM O MENU ACIMA PARA CONHECIMENTO DE NOSSOS TRABALHOS. AGRADECEMOS A ATENÇÃO. 

 

                     

DATAS DO MÊS

12/08 - DIA NACI0NAL DAS ARTES

14/08 - DIA DOS PAIS

24/08 - DIA DA INFÂNCIA

         

A EMPREGADA   MAIS UM DIA   OLIMPÍADAS 96   CONTANDO UM FATO   CONTRASTE                

                                    

 

                               A EMPREGADA  

                             Por Elaine Ventureli Caldas

                Dona Beth estava mesmo atropelada! O que fazer primeiro? Depois dos quarenta havia resolvido voltar a estudar. Talvez fosse a crise da menopausa. O certo é que ela foi acumulando de tudo um pouco. Os filhos adolescentes estudando. O marido precisava de uma secretária e ela se candidatou a vaga.

              Não sabia se cuidava do pequeno apartamento, mas que dava muito serviço, se cuidava das roupas ou das refeições.

              Ainda por cima a faculdade! Depois de tantos anos não era nada fácil acompanhar os jovens. Parecia que, para eles era brinquedo! Foi preciso dona Beth entrar para uma escola de inglês, sua pior matéria, para poder acompanhar a garotada. Aí sim as coisas ficaram pretas, para não mencionar as obras de caridade que fazia uma vez por semana e seu culto religioso que não dispensava. Afinal precisamos garantir um lugarzinho no céu!

             A solução foi procurar uma empregada.

             Não era preciso ser grande coisa, bastava que ajudasse a dar uma ordem no caos que se tornara seu lar.

             Foi até uma agência de empregos. Era mais seguro, pois numa cidade como São Paulo, o perigo de se empregar qualquer uma era grande.

            Quando Elizabeth lhe foi apresentada causou uma boa impressão. Negra como piche em seu uniforme impecável. Logo de cara dona Beth lhe disse:

            - Não precisa de uniforme, vou lhe comprar uns shortes e umas camisetas. Também pode ir embora logo que desocupe.

            Não havia acabado de falar e levou um pito da dona da agência:

           - Onde já se viu! Levamos meses treinando nossas alunas para servirem as madames e lá vem uma caipira querendo estragar tudo?

           Com uma ruga na testa disse a dona Beth que ela precisava de umas aulas de como ter empregada. Vermelha de vergonha lá foi dona Beth acompanhada de sua ajudante.

           O apartamento, muito pequeno, obrigava a que o casal colocasse o escritório no terraço de serviço, junto com a lavanderia e a mesa para as refeições.

          Tudo bem organizado até que possuía um certo charme.

          O problema era a empregada.

          Dona Beth  se viu constrangida a cuidar melhor da aparência.        

          Levantava e antes de ir tomar o desjejum já estava impecável. No começo a família estranhou, depois entendeu:

          - Madame precisava se portar como convinha.

          A empregada pouco falava e vivia brilhando o pequeno espaço. Dona Beth precisava fingir que também trabalhava e aparentar estar atarefada no seu reduzido escritório. No começo foi uma maravilha. Porém, depois que estava tudo organizado, o que fazer com Elizabeth?

          Mandá-la mais cedo para casa não podia, pois iria estragar todo o serviço da agência. Não queria ser chamada de irresponsável.

          As coisas foram ficando incomodas. Não podia conversar com a empregada, para não lhe dar liberdade, recomendara a agência. Não podia isso, não podia aquilo e as duas fingindo trabalhar no pequeno cubículo. Quando vencia as oito horas combinadas e Elizabeth ia embora, dona Beth respirava aliviada:

          - Agora sim posso botar um chinelo e ficar a vontade.

          A família ficava só na espreita. O que iria acontecer? Isto, para não falar no ordenado, que era uma pequena fortuna, e, dona Beth suava para pagar.

          Não tendo muito que fazer dona Beth resolveu infringir algumas regras. Comentou sobre o trabalho que fazia no centro Espírita com crianças com síndrome. Não deu outra, Elizabeth pertencia a Igreja Universal, arrepiou-se toda e passou a catequizar a patroa.

          Os nervos foram atacando e no final dona Beth se viu tratando com um psiquiatra.

          Que fazer com a empregada?

             -    Pobre é assim mesmo, “quando Deus dá a farinha, o diabo tira o saco”, refletiu pesarosa dona Beth.  

                    

                                                  

-                                                    MAIS UM DIA.

                                                             - Crônica -  

                                                         Por Elaine Ventureli Caldas

           De minha janela vejo o dia começar. No alto da colina um resto de luar ilumina a grama verde e um raio de sol já faz brilhar as gotas do orvalho.

          Preguiçosamente as pessoas começam a se levantar.

         As casas que vejo são humildes e somente o fundo delas dá para meu ponto de observação.

         O contraste entre a esplêndida natureza que descortina e as casas é enorme. No fundo azul de um céu claro e sem nuvens está a Mantiqueira. Majestosa, com seus picos agrestes e mata virgem desafia o homem. Ao longe o Pico do Gavião onde a rapaziada pratica o vôo livre em suas engenhocas modernas.

         Acredito, em minha imaginação, ver bichos selvagens e a passarada em alvoroço acordando para um novo dia. Prestando mais atenção percebo que o alvoroço dos pássaros esta bem perto, junto de mim, no meu quintal onde o pomar carregado de frutas transforma-se num banquete para os bichinhos esfomeados.

         O rádio está ligado e a voz do locutor procura adoçar-se ainda mais na crônica do dia a dia.

         A água ferve e o café solta no  ar  seu  perfume convidativo.

         A azáfama vai devagarzinho aumentando.

         Numa das casas a dona sai à porta e espia o tempo. Sua barriga mostra que o feto já esta bem grandinho. Uma outra aparece sorridente com uma bacia cheia de roupas limpas, prontas para secar no varal que se estende por todo o quintal.

          Estou em um ponto privilegiado. Minha casa, sendo mais alta do que as outras, me proporciona uma visão total de todo o bairro. Também cuido de meus afazeres, porém de um modo displicente. Enquanto a água do café borbulha, já tenho a mesa posta e anoto tudo o que acontece ao meu redor. Vejo, por exemplo, a senhora negra como piche que lava os alumínios no tanque. A panela brilha e mostra o asseio da dona.

         A casa pobre trás as paredes descascadas e, os tijolos aparecem de espaço a espaço. Pouco antes, o marido havia usado o mesmo espaço, para sua higiene pessoal. São assim, nas casas dos menos favorecidos. Infelizmente, eles não tem um lugar próprio para se lavar e são obrigados a usar o tanque tanto para suas roupas, como para panelas e até o rosto.

         No fogão a chaleira provavelmente também ferve a água para o café. Daqui a pouco cada um dos membros da casa irá trabalhar na roça. A porta será fechada e somente à tardinha voltarão para um descanso merecido.

         Nós outras, que somos consideradas do lar, também temos nossas tarefas a espera de mais um dia.

         De vagar, um a um, vamos acordando e sonolentos procuramos nos adaptar a um novo dia que começa.

         No ar os sons se misturam. O rádio lança musica moderna e no quintal os pássaros cantam felizes.  

                  

                                                          

                                                   OLIMPÍADAS 96

                                                                               - crônica -  

                                                                Por Elaine Ventureli Caldas

                    As olimpíadas  foram  este ano uma verdadeira guerra mundial. O que houve de agressões e atentados ficou na história.

                   Na véspera de começar as Olimpíadas houve um atentado em um avião e morreram mais de duzentas pessoas. Em seguida jogaram uma bomba em um parque de diversões e morreram duas pessoas e mais de cem feridos. Em seguida no mesmo parque outro estouro e ninguém ficou sabendo se era outro atentado ou um curto circuito.

                   As jogadoras de Cuba atacaram as brasileiras na quadra e no vestiário. A briga foi feia e acabou na delegacia. Isto para não falar em como atletas de diversas modalidades agrediram companheiros com palavras, chutes e escárnios.

                   Parece  que  os jovens, ou a humanidade de hoje, não entende o que é uma verdadeira competição, onde cada um mostra o que tem de melhor no seu país.

                   No final o Brasil ganhou de Portugal de 5X0 ficando com a medalha de bronze. Uma derrota para o futebol brasileiro que esperava trazer o ouro. Talvez tenha faltado humildade aos nossos campeões. Eles demonstravam nas fisionomias, depressão e o sinal da derrota.

        Quem sabe na próxima aprendamos a lição.  

                 

                                                          

                                        CONTANDO UM FATO

                           Por Elaine Ventureli Caldas

          A briga havia sido feia. A cidade ficara dividida. Metade do lado do patrão e metade do lado do empregado.

          Ele havia perdido, é claro, já viu pobre ganhar? Só em novela mesmo.

         João não encontrou outra saída. Vendeu o pouco mobiliário que possuía e partiu para a cidade grande. São Paulo foi à escolhida. Não ficou, no entanto, na capital. Seguiu para São Caetano do Sul. Quem sabe o santo protetor daria sorte. Ele era supersticioso. Junto levou a mulher e os filhos. Todos de cara emburrados. Todos não, a filha mais velha, já adolescente, estava feliz.

        - Morar em São Paulo? Que maravilha! Iria trabalhar e vencer na vida!

        Que decepção!  Começou logo ao deparar com o lugar onde iriam morar.

         - UM CORTIÇO! Gemeu ela.

         As casas pareciam um trem de ferro. Seguidas, uma atrás da outra, os vagões, ou melhor, as casas possuíam três cômodos cada uma. Entravam pela cozinha, passavam para a sala, que servia de quarto para as crianças maiores e em seguida para o quarto do casal. O bebê ficava junto à cama grande e uma das meninas num quarto improvisado, com o guarda-roupas servindo de divisória. Os banheiros e os tanques ficavam em frente, serviam, cada um, para duas casas. E lá seguia outro trem de ferro ou vagões como queiram.

        As famílias costumavam receber a fresca na porta de suas casas e ficavam vigiando cada um que entrava no banheiro. Contavam os minutos ou hora que lá ficavam.

        João era o campeão. Acostumado a levar jornal para ler e se entreter, ficava horas. O comentário explodia:

        - Deve ser prego que ele come!

        A mocinha dengosa logo viu que São Paulo não era o paraíso esperado. Sentia falta de verde, de mato, e, vivia sonhando com sua pequena vila.

        O dinheiro era curto e tudo que a moça ganhava ia para o bolso do pai e dali para o aluguel da casa.

        Desilusão!  E ela, que havia pensado em se tornar importante, estudar, trabalhar e ganhar muito dinheiro, viu tudo roer.

        No Natal a festa foi amarga, como único quitute, um mingau de fubá doce.

       A miséria da família só era superada pelas crianças de rua que comiam famintas os restos da feira livre que toda semana era armada em frente do curtiço.

       De vez em quando uma das famílias do curtiço fazia um bailinho. Animado por sinal. A família de João não comparecia. Eram mineiros, criados a moda antiga e não se misturavam, para que a filha não ficasse falada.

      O tempo foi passando e em vez do sucesso esperado apareceram as doenças. O casal não se entendia. Era um desastre. A menina do meio era chamada de “curticenta”, pois foi a única a se adaptar. O menino, com olhar lagrimoso, lembrava-se dos amigos e das brincadeiras de antes. O estilingue que era o receio dos pássaros. A bola, o susto da vizinhança, e as cavernas exploradas por ele e outros colegas.

      Os meses vinham e iam e nada de melhorar.

      Cabeça baixa, ombros caídos, sentindo um fracassado, João se viu num dilema: - Perder a família ou retornar?

  A mulher se decidiu. Fez as malas, juntou os trapos e se mandou.

  João não teve outra solução, amargurado e vencido seguiu atrás.  

               

                                                   

 

                                                  CONTRASTE

                                                                  - crônica -  

                                                                  Por Elaine Ventureli Caldas

          No fundo erguem-se para o céu os imponentes prédios. Dentro dos apartamentos, o luxo, a riqueza, o conforto. A luta para conseguir mais e mais faz com que os habitantes dos luxuosos arranha-céus não se dêem conta do contraste.

         Em primeiro plano está a favela. Pedaços de caixões, zinco, papelões, cobrem e formam as moradias de miseráveis. O lixo acumula. Nada de benfeitorias, para aliviar um pouco, o sofrimento daqueles que ali vivem. Junto a crianças desnutridas, barrigas crescidas, cheias de vermes, pastam animais abandonados e vagam cães sarnentos. Os pais estão na lida, cuidando dos filhos dos ricos enquanto os próprios filhos, enclausurados em seus barracos, choram de frio e fome.

         De vez em quando alguns deles olham para o alto e sonham. Sonham com o dia em que também tenham a chance de estarem vivendo naqueles prédios.

        Quantos chegam até lá? Poucos. A maioria partirá para as drogas, o crime, acabando numa prisão ou mortos numa guerra de bandidos.

        O contraste, no entanto, continua. Para cada prédio construído uma infinidade de casebres se multiplica para agasalhar o operário contratado para a obra.

        As mãos calejadas assentam, tijolo após tijolo, levantando palácios para os nobres. Nas horas de folga catam o lixo, que servirá de abrigo nas noites escuras, para seus familiares. Os filhos, nariz escorrendo, num resfriado constante, o olhar lacrimoso, esperam a chegada dos pais na esperança que tragam algo para comerem. O cansaço crônico não os deixa pensar na vida que levam. A vida resume num deitar com a barriga roncando de fome, dormir algumas horas e levantar ao amanhecer para um novo dia de trabalho. Não têem tempo de ver o horizonte avermelhado, com os raios do sol atrás da colina. A corrida até o ponto de ônibus é mais urgente. Se perder este, não chegará em tempo para o trabalho e, será descontado dois dias de serviço. Dependurados nos andaimes não conseguem ver o movimento da vida lá embaixo e nem o corre, corre de seus semelhantes. Na hora do almoço a marmita fria trás o arroz com feijão ressequido.

         A mulher em casa da madame alimenta os patrõezinhos com frutas e leite. E seus filhos? O que estarão comendo agora? Será que Zézinho não terá derrubado a espiriteira e colocado fogo no barraco? A agonia é grande e tanto Benedita, quanto Manoel, trabalham sufocados a espera que, mais um dia acabe, para irem para a favela ver se tudo esta bem.

        Quando na TV. dos patrões aparece o sinal de alarme, mais uma favela se incendeia, eles, com o coração nas mãos, ficam rezando para que não seja a sua.

        A tarde, no céu, o azul se mistura com o colorido do sol e o crepúsculo colore a paisagem, mas eles não têem tempo para bobagens. O pensamento está lá, nos filhos sozinhos. Correm atrás do ônibus lotado e mais uma vez se dirigem para o lar. Mais um dia se acabou e o corpo dolorido pede cama. Os filhos se amontoam junto aos pais num único cômodo, sem condições de um merecido descanso.

        Os dias passam, as noites também e as Beneditas e Manoeis da vida esperam o único descanso possível - a morte.