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                                                    MAIO - 2008

                       

                     flores para as mães

 

DATAS DO MÊS

01/05 - DIA DO TRABALHO

11/05 - DIA DAS MÃES

          

TRISTES PASSAGENS DE MINHA VIDA O VIOLINO PROPAGANDA CAMUFLADA VIOLÊNCIA NA FAMÍLIA UM CONTO

 

                                       

                   TRISTES PASSAGENS DE MINHA VIDA

                                                                  Por Neuli Aparecido Domingues

     Eu morava em uma fazenda com papai, mamãe e meus irmãos.

    Cidade de Céu Azul, interior do Paraná.

    O meu pai era boiadeiro, trabalhava para um fazendeiro. Um homem egoísta, o seu trono era o dinheiro.

    Dizia para meu pai:

    --Se não quiser perder seu emprego, manda seu filho agora,  lavar o mangueiro.

    Eu tinha apenas sete anos de idade e já trabalhava o dia inteiro, se não fizesse o serviço certo, ele me botava de castigo e eu tinha que dormir no banheiro.

     Eu já não brincava mais e não podia estudar, porque o meu pai não deixava, eu tinha que trabalhar.

     Um dia de tardezinha, a minha irmã caçula chorava muito, de certo estava com fome, pois ela pedia “mamá”.

     Minha mãe fazia a janta e naquela hora ela não podia arrumar.

     Eu estava ali por perto e a minha irmã eu fui agradar, achei no terreiro uma latinha, coloquei água e sabão e com uma folha de mamona eu fiz um canudinho para ela poder soprar.

     E na minha inocência de criança, aquele brinquedo que eu fiz com muito carinho pra minha irmãzinha, eu fui entregar. Eu não imaginava que aquilo que eu havia feito era perigoso e a minha irmã pudesse tomar.

     Quando meu pai viu aquilo saiu correndo, tirou das mãos da menina e em mim já foi batendo com um pedaço de madeira. Ele me batia sem piedade e sem dó e se minha mãe não estivesse ali naquela hora, tinha acontecido o pior.

     Naquela noite, trancado no banheiro, eu fiz um juramento:

     --No dia que eu crescer, o meu pai eu ia matar.

     O tempo foi passando, todo dia eu apanhando, a minha raiva aumentando. Eu já não sentia dor e tudo o que eu queria era um pouquinho de amor.

       Em minha adolescência, já cansado de trabalhar, por muitas noites tentei me suicidar. Eu ouvia uma voz que me dizia:

      --Filho, acalma seu coração, isso tudo é uma provação e logo vai passar.

      O tempo passou depressa, eu já era um homem e tudo o que eu queria era cumprir minha promessa.

      Mas meu pai adoeceu, trinta dias de cama, a sua voz enfraqueceu.

      Ele já não agüentava mais e tudo que queria era morrer em paz.

      Uma noite ele me chamou para me pedir perdão, mas com o ódio que sentia dele eu não tive compaixão:

      --O que o senhor fez comigo, isto não tem perdão.

      Bati a porta na cara dele e pro meu quarto voltei. Sentado na minha cama de minha vida relembrei. Aquela voz que eu ouvia de repente apareceu, olhei depressa ao meu redor e uma luz acendeu, e daquela luz, uma mulher apareceu.

       Era a nossa Mãe Rainha e este conselho me deu:

      --Perdoa o seu pai agora para também ser perdoado, viva o hoje, o amanhã e esqueça o passado, meu Filho veio ao mundo para falar de amor, foi preso, chicoteado, com uma coroa de espinhos em uma cruz ele foi pregado e a todo mundo ele perdoou.

      Eu naquela hora corri até o meu pai, dei um abraço apertado e com um beijo, o meu pai foi perdoado.

      E dos olhos dele uma lágrima brotou, segurando nas minhas mãos desse jeito falou:

      --Eu preciso ir embora, minha hora já chegou, você é meu filho muito amado.

       Deu um suspiro dobrado e desse mundo descansou. 

                           

                                                     

                                     O VIOLINO

                                                                      Por Luiz Carlos Gonçalves

       Helena era uma moça de seus vinte anos, morena de cabelos negros e compridos, que morava na pequena Vila de São Luiz, sul de Portugal. Na rua onde morava Helena havia um pequeno prédio de quatro andares, um pequeno bosque onde viviam vários passarinhos e pequenos animais, como esquilos, coelhos, etc. Em volta da pequena praça uma lagoa com peixes e patos, havia também vários bancos onde os moradores da rua, todas as tardes, ficavam conversando até ao anoitecer.

       Helena morava no terceiro andar do prédio, pois o quarto andar encontrava-se vazio. Ela conhecia toda a vizinhança, trabalhava numa escola e a noite fazia aula de música no conservatório. Estava no terceiro ano de violino e já tocava muito bem o instrumento. Todos admiravam seu talento. Na igreja da vila ela acompanhava a missa todos os domingos. De manhã gostava de tocar para as crianças e o mais interessante que até os passarinhos, com seus assovios fininhos, acompanhavam suas canções. Eles ficavam a beira da janela da igreja. Quase todos os sábados a tarde Helena ia com seu violino  tocar no quiosque. Os moradores já estavam acostumados com as melodias que saiam daquele violino e mais uma vez lá estavam os passarinhos para acompanhar as canções.

       No dia da festa de São Luiz, o santo da vila, toda a população compareceu animada e o pequeno quiosque já estava todo enfeitado para ver a apresentação de Helena e seu inseparável violino. Mal sabiam eles que aquele dia seria sua última apresentação. Quando ela chegou foram muitos aplausos, pois havia pessoas de outros lugares que nunca tinham visto e ouvido Helena tocar. As músicas começaram logo, pois o céu estava escuro e alguns relâmpagos riscavam a escuridão. Era sinal que a chuva iria cair logo e por isto todos precisavam aproveitar o mais possível a festa.

       Todos se divertiam, de repente ouviu-se um grande estouro e as luzes da vila apagaram-se. Houve uma grande correria, as pessoas procuravam algum lugar para se esconder, porque a chuva caia muito forte. Como Helena morava ali mesmo resolveu ir para seu pequeno apartamento.  Já estava dentro da casa quando notou que a janela de seu quarto estava entreaberta e sentiu um calafrio correr por seu corpo, era como se um vulto estivesse em seu quarto, mas não deu muita atenção. Quando foi fechar a janela notou que uma corda estava pendurada e ao virar-se, com a claridade dos relâmpagos, deparou com um homem todo de preto e mascarado na sua frente e em uma de suas mãos um punhal. Helena ficou desesperada tentando fugir das mãos daquele homem, mas não conseguia porque ele era muito forte. Então, foi aí que a tragédia aconteceu, o sangue caiu em seu lençol e ali estava ela abraçada com seu violino, morta.

        No outro dia de manhã os vizinhos foram organizar toda a bagunça que o temporal fizera durante a noite passada. Eles acharam muito estranho que Helena não aparecesse para ajuda-los, porque ela era companheira para qualquer coisa. Resolveram ir ao apartamento para ver o que havia acontecido. Ao abrirem a porta do quarto de Helena foram surpreendidos com a mesma caída no chão e em cima de seu corpo uma mensagem com as seguintes palavras: -- “Ela foi a mulher mais importante da minha vida”.

        Todo o dia quinze de cada mês ouve-se o som de violino e os passarinhos e os animais daquele lugar silenciam para ouvir aquela triste canção ecoando na vila. Mas o mistério continua até hoje, porque ninguém conseguiu explicar porque Helena, aquela moça tão meiga e feliz, foi assassinada com tanta crueldade. Teria sido vingança ou ela possuía um passado misterioso que ninguém sabia? 

                              

                                                      

                                PROPAGANDA CAMUFLADA  

                                 Por Armando de Oliveira Caldas

    Há muitos anos, quando a televisão ainda engatinhava, o rádio era o centro das atenções. Naquela época, na antiga Rádio Nacional havia um programa sobre o Cinema no Brasil. O locutor utilizava um slogan: “fale mal, mas fale do cinema nacional”.

   Isto quer dizer que quando se deseja propalar alguma coisa, o assunto objeto, mesmo que tratado pejorativamente ganha espaço nas mentes, podendo servir de incentivo para assimilação do errado.

    O olhar atento de um adolescente, vendo na TV propagandas contra drogas, pode mentalizá-las não beneficamente, mas sim no sentido de experimentá-las, de procurar o perigo. É preciso ser lembrado que nessa idade o cérebro ainda está em formação.

    Será errado?

    Há alguns anos, bastou ser noticiado pela primeira vez que alguns jovens haviam cometido atrocidades numa escola Americana, para que aqui viessem a ocorrer fatos semelhantes. 

   Para a TV, o sensacionalismo é IBOPE, é lucro, mas o mal que advém disto não é mensurado.

    A violência explicita, o excesso de comentários sobre esses assuntos acabam gerando mais violência. Quando ela é colocada em filmes, apesar de incitar ao crime, é amenizada por tratar-se de ficção. Por outro lado, quando é apresentada como fato real acaba criando seguidores.

    O poder da TV é enorme, sua penetração atinge todas as classes. Não há nenhum rigor dos pais para evitar que os filhos assistam aos programas. É comum crianças ficarem diariamente frente ao vídeo. Assim, em nossos dias, não há como evitar o conhecimento prematuro de atitudes ou fatos nocivos às mentes infanto-juvenis.

    É mais fácil um cuidado por parte das emissoras do que por parte da população. Nem tudo pode ficar como está em nome da modernidade. Censura não é o caso, mas cuidados profissionais deveriam ser revistos. O mundo da televisão e dos artistas que a compõem não corresponde à grande massa dos habitantes deste País.

    Exemplificando, a entonação jornalística ou entrega total do apresentador a um determinado assunto pode levá-lo a promover reações boas ou más. A utilização desta garra para mensagens produtivas é excelente, mas direcionada ao   comentário sobre hostilidades contra a vida tende a auxiliar na proliferação do banditismo.

    O raciocinar correto não se encontra em todas as pessoas, portanto não apenas crianças e jovens estão sujeitos às   influências. Em jornais ou revistas se pode permitir detalhes, a procura é limitada, portanto não produz o mesmo efeito.

     Há muita coisa errada, não apenas as direcionadas para o crime. Há excessos em todos os sentidos, verdadeiras lavagens cerebrais que os incautos assimilam.

     Excetuando-se os canais de cultura, podemos começar pelos filmes Americanos, se forem observados, em nenhum é deixado de se mostrar a bandeira deles, forma de acentuar domínio. A introdução gradativa e cada vez mais rápida de termos em inglês vem desvirtuando nossa língua. Até nossa música sertaneja hoje é “moda country”. Estamos perdendo nossas raízes e ninguém nada faz! É irritante o que acontece e o pior é ainda ver a Nação acompanhar isto feliz. Até o macarrão que comemos tem que ter um nome em inglês!

     O mais degradante nesta situação é ver uma onda cada vez mais acentuada de alienação de costumes. O nosso vaqueiro virou “cowboy”, nossas grandes lojas viraram “shopping” e assim por diante.

  A religião é necessária, mas não da forma como é apresentada, chegando-se a ponto de determinado canal não transmitir outros programas.

    Os políticos que deveriam ser os primeiros a mostrar verdades apenas pensam em denegrir imagens uns dos outros.   

    O Sexo é exageradamente explorado, assunto básico na maioria das entrevistas, resultando aumento de mães solteiras.

      Dirão: - Quem não quer ver que não ligue TV, ou não acompanhe as mudanças!

     Este não é bem o caso, o fato é saber que estamos no caminho errado e continuamos nele. Muitas vezes aplaudimos ao invés de repudiar, por isto a mídia se mantém a favor dos absurdos que diariamente pairam diante de nossos olhos.

    Censura é palavra proibida para a TV. A liberdade de expressão faz parte da democracia, no entanto nem tudo deveria ser alvo de atenções. Para um bom apresentador, transformar o errado em certo não é difícil, é o que acontece atualmente. Muita coisa errada é feita visando a divulgação, até uma rebelião de presídio ou uma invasão de terras.

    Além desses problemas, existem colocações jornalísticas que necessitam de muita atenção. Podem, gradativamente, fazer-nos aceitar mudanças que nos prejudicarão no futuro. Para exemplo, vejam que, sutilmente iniciou-se a propalação sobre o aumento de preços nos alimentos. Quem lucra? Não é necessário ser especialista para perceber que, quem lucra são os investidores. Agora já estão dando certa razão para o aumento da gasolina, e assim por diante. Será que não é pressão para poucos aumentarem suas incalculáveis riquezas?

      Temos inteligência para não entrarmos nesta onda. Fiquemos atentos. Notícias boas parecem não ser o ideal da TV. Nunca podemos esquecer que a inflação desestabiliza a Nação.

        Somos o Brasil e precisamos pensar em tudo.

                                

                                                   

                     VIOLÊNCIA NA FAMÍLIA

                                                                      Por Elaine Ventureli Caldas.

                     A mídia nos mostra, nos mínimos detalhes, a violência praticada em uma menina de apenas cinco anos. As evidências indicam que os responsáveis são aqueles que deveriam dar toda segurança, carinho e amor e que, no entanto, a usam como saco de pancadas.

                  Sabemos, pela psicologia infantil, que os bebês se sentem como “reizinhos”, donos do mundo e centro das atenções. Então o que pode passar na cabecinha da criança que vê o seu lar desmontado e os pais partindo para formarem novas famílias? O que teria imaginado a pequena Isabela ao ver que seu querido e amado pai havia abandonado sua mãe e a ela própria e construído uma nova família? Junto à madrasta outros irmãos também iriam dividir o amor e carinho que naturalmente deveria ser dela?

                  Logicamente, imaginamos, que ela deve de ter-se rebelado e brigado muito com a intrusa e os irmãozinhos menores para garantir a posse, que naturalmente, se julgava proprietária. Daí a revolta da “mãe postiça” incomodada com essa criança, que a todo o momento lhe mostrava, não ser a primeira e única a ter direito sobre o homem que era o chefe da família. A disputa e a guerra estavam formadas, madrasta contra enteada. Logicamente a filha, julgando que lá no intimo podia contar com a proteção do pai, sentia-se segura, certa? Não! Errada!

                  Seria essa uma historinha infantil onde a madrasta má procura destruir a enteada, mas que, como por milagre, uma fada boa sempre, mesmo que no ultimo minuto, a vem socorrer? Mais uma vez errado! Nem fada, nem pai, nem mãe, e a pequena criança ferida, sangrando vê-se esganada, sufocada e para finalizar a cena macabra é jogada no abismo. Seu corpinho inerte sofre o impacto da queda no jardim do prédio.

                  Nem mesmo as marcas das feridas, o sangue correndo, o vômito lançado sem seus agressores foi suficiente para atingir a alma rude, fria e indiferente de seus agressores.

                  Este é um fato isolado? Não! Infelizmente não! Quantos anjos não estão, cada vez mais aumentando o coro dos céus. Quantas crianças estupradas físicas e mentalmente, não estão morrendo ou sobrevivendo amargamente neste mundo onde a incompreensão e a loucura predominam. Quantos pais não justificam suas violências através da desculpa de que desejam o melhor para seus filhos e estão simplesmente os educando.

                  Vi, certa vez, uma senhora idosa dizer a sua filha quarentona:

                  --Sabe por que batia tanto em você? Era porque não desejava que o mundo a corrigisse e queria mostrar a violência que você teria que enfrentar. Era preciso estar preparada.

                  Violência é prova de amor?

                  Matar por amor?

                  Destruir o sonho e a esperança em nome desse amor?

                  Isso se justifica?

                  Que mundo é esse, onde os pais não amam e protegem a própria cria? O que esperarmos do futuro, se imaginávamos, que a educação e a cultura pudesse mudar a violência tornando o ser humano mais compreensivo e o que vemos é exatamente o contrario?

                  Quando ficamos sabendo que numa favela uma criança foi espancada até a morte, outra, jogada ano lixo ou no esgoto, calculamos ser a miséria, a fome, a ignorância que levou o ser humano cuidador a agir tão barbaramente; porém quando a violência vem da classe alta, de pessoas com curso superior que o praticam, nossa alma como que fica paralisada.

                  Onde procurar socorro? Onde procurar respostas? Parece que, com os diplomas, o que acontece é somente os egoístas, os mal amados, os bandidos, apenas sofisticaram ainda mais as suas maldades. Parece, para nós leigos, que os esquizofrênicos e perturbados mentais apenas conseguem burlar as leis, tão mal redigidas e tornarem suas maldades e sadismos, ainda mais bem elaboradas.

                  O que o mundo precisa realmente? Mais conquistas no campo cientifico, dos esportes, das artes, dos negócios? Não estaremos correndo atrás do Ter e esquecendo do Ser?

                  Nossa vida é curta. Mesmo que vivêssemos mais de cem anos ainda assim esse tempo chegaria e olharíamos para trás como se fosse apenas ontem que brincávamos, namorávamos e tínhamos nossos filhos. Vale a pena esse desespero para acumular bens?

                  Num ano, em que a igreja católica lança o lema pela vida e contra a morte vemos pais sendo acusados de matarem seus próprios filhos e não apenas aqueles que ainda não nasceram, mas também os maiorzinhos.

                  Continuamos nos perguntando:

                  --O que devemos mudar em nossa sociedade? Mães mais presentes em seus lares, ao lado dos filhos?  Mas, para isso, como fazer num mundo, cada vez mais exigente de consumo? Os homens sozinhos não conseguem dar conta e é necessária a ajuda das mulheres. O antigo modelo de família já conhecemos, onde o pai era o provedor financeiro e a mãe a cuidadora dos filhos.

                  Era menor a violência?

                  Em alguns casos sim, onde a mulher, mais sensível e delicada, podia acompanhar o desenvolvimento de seus rebentos. Porém, as mulheres, muitas vezes, se sentiam frustradas, injustiçadas e humilhadas pelos maridos, que, segundo eles, trabalhavam e a mulher não, acabavam descarregando em seus filhos todo ódio e rancor. Quantos adultos amargos conhecemos, que sofreram violências de mães e pais que descarregavam suas revoltas naqueles entes deixados as suas autoridades. Diferente o antigo, o ontem, do moderno, do hoje? Talvez em menor número, naquele tempo, ou quem sabe, menos divulgado.

                  Então o que nos passa pela cabeça é que somos, do reino animal, os mais violentos e desumanos.

                  Um dia, há mais de dois mil anos atrás, alguém veio até nós para dar o exemplo do que era preciso para ser iguais a Ele. Nos mostrou abnegação, partilha, amizade, amor e doação.

                  Estamos realmente seguindo seu exemplo?        

                               

                                                

 

                                   UM CONTO  

                    Por Armando de Oliveira Caldas 

        

  Na pequena praça uma boa sombra cobre um banco onde dois

amigos sentam-se para um descanso. Ambos são aposentados e o local é costumeiro. João dirigindo-se a Miguel, como sempre o falador, logo iniciou seu monólogo:

      --- Sabe amigo! Vou lhe contar uma história.

      Escute-me, não me interrompa.

      Miguel vira-se para ele e se coloca a escuta. João com ar de entendido ajeita-se e continua:

      --- Quando era criança minha vida era fantástica, uma verdadeira fábula, tudo podia acontecer. Imaginava viagens no espaço, cinema em casa, transportes sem esforços e confortos nunca vistos.

      Pois é, a realidade viria mostrar que minha fértil imaginação estava apenas em parte certa.

      Na minha construção tecnológica o mundo seria uma maravilha, com pouco trabalho as pessoas ganhariam renda. O simples homem deixaria a enxada, passaria a apertar botões e receberia o necessário para uma vida tranqüila e feliz.

      Quanta decepção!

      As máquinas foram chegando, os robôs fazendo o trabalho e o HOMEM EXCLUÍDO.

      O amigo ao lado atento àquela lengalenga concorda com a cabeça e João continua:

      --- Espere! Ainda não lhe disse nada. Ouça o que vou lhe falar.

        Fui gerente de Banco por muitos anos. Lidei com donos do dinheiro e nunca o tive, o que  não  me  entristece,  afinal consegui criar minha família. Mas não é sobre isto que quero comentar e sim sobre a sociedade.  Veja o desemprego, a luta desenfreada de moças e rapazes a procura de um lugar ao sol. Oportunidades cada vez mais difíceis, sempre se exigindo mais.

       Isto não acontecia na minha mocidade. Era até comum alguém dizer para um desocupado: “Vai trabalhar vagabundo!”.

       Então que mundo é este?

       Se alguém não possui recursos para cursar uma faculdade, para melhorar os conhecimentos, é marginalizado?

       Não há segurança, não há perspectiva, não há futuro.

       Por que isto?

       Miguel olha para o amigo e balança a cabeça e este retoma a palavra:

       --- Simples, muito simples. É a monopolização de todos os itens da produção.

       Do jeito que vai indo chegará um dia onde não existirão compradores, deve ser isto que as grandes empresas visam.

       A sociedade rica tem péssimo hábito, deixa sempre para as autoridades resolverem. Mas não é bem assim, os milagres não ocorrem.

       O que gera realmente a riqueza é a distribuição de rendas e recanalização delas. Se a população compra em grande quantidade o lucro aparece e o volume monetário cresce.

       Agora que as fábricas e a própria área rural cortaram empregados, como fazer para que o dinheiro chegue a tão grande parcela da humanidade?

      Não serão soluções os subempregos. A continuar esta linha de conduta o próprio dinheiro poderá perder o valor.

       Miguel olha um tanto assustado e balança novamente a cabeça, mas João não se detém.

       --- Absurdo?  Nem tanto, para uma mudança basta não acreditar nos economistas, tão falhos como qualquer pessoa.

       Vivem computando o dólar ao invés de voltarem-se para nosso REAL. O fator ganho parece estar sempre condicionado a uma moeda estrangeira. O verdadeiro caminho da estabilização está na grande massa de habitantes e no uso da moeda nacional sem inflação.

        Quanta força de trabalho está se perdendo, quanto lucro estão se esvaindo.

        Miguel novamente gesticula, interrompe e João continua:

        --- Que lucro é este? Você não sabe?

        É simples, todo incentivo ao trabalho, seja qual for vão gerar produção e aí está a resposta.

        No entanto é triste ver políticos e manipuladores de massa se direcionarem apenas para o pessimismo, incutindo formas negativas de pensar. Na ânsia do poder apenas procuram parâmetros que deveriam ser menos evidenciados. Assim será impossível uma total união de idéias direcionadas para o bem do Brasil.

        Miguel, o atento ouvinte, lhe faz um sinal.

        --- Você quer saber sobre as máquinas? Diz que o que estou falando é apenas sonho?

        Bem, ocorre que continuando assim, até grupos privilegiados aos poucos se extinguirão. Já estão acontecendo, não raro falências assolam grandes potenciais econômicos.

       As pessoas encontrarão formas artesanais para se manterem, o dinheiro circulante diminuirá cada vez mais e conseqüentemente a venda de produtos manufaturados.

       Unindo problemas energéticos criados pela escassez natural d’água aos desvarios da ganância de grupos o Homem sem recursos, que poderá compor a maioria, regredirá e o arcaísmo será generalizado.

       O amigo novamente o interrompe gesticulando, João entende e responde:

       --- Pena que você não possa se expressar, é mudo como tantos outros.

       Miguel mostrou-se aborrecido abrindo os braços gesticulando.

       --- Entendi Miguel, não estou me referindo a você. Também o que lhe disse não deixa de ser uma fábula, pois aquilo que não pode ser realidade é apenas fantasia, UM CONTO.