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                                      SETEMBRO - 2007

           

 

DATA DO MÊS

07/09 - INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

               

REENCONTRO  -UM SONHO NO INFINITO -PAI, SEU NOME É SAUDADE

                 REENCONTRO – CONTO

 

                                                                                   Por Elaine Venturini Caldas

                        - Bom dia vovó! Dormiu bem? Está na hora de fazer sua higiene pessoal e tomar um cafezinho. Não quer? Mas está tão bom, quentinho. Vamos eu ajudo. Dentro de meia hora o doutor passa por aqui, precisamos deixar o quarto bem limpinho.

                        Nem bem a enfermeira foi falando, já, sem esperar resposta, foi até a cama da doente erguendo e ajeitando o travesseiro para fazer-lhe a higiene pessoal. Em seguida colocou-lhe a bandeja com a xícara de plástico onde um leite com café aguado chegava ao meio. Ao lado um pedaço de pão com margarina. Era só o que os doentes daquela ala recebiam. Afinal eram dependentes do SUS e não pagavam pelo tratamento. Até que era razoável visto serem três senhoras apenas por quarto, raciocinavam as doentinhas.

                        A limpeza se fazia sentir e os lençóis brancos, apesar de remendados, eram trocados diariamente. A jovem enfermeira deixou a velha de cabelos grisalhos e se dirigiu a sua companheira nos mesmos termos. A todas acordava com um sorriso e chamava-as, ora de vovó, ora de dona Maria. No leito n° 1 a mulher parecia não ouvir o que a enfermeira dizia, seu pensamento estava longe, numa outra época.

                        - Dona Maria!!! Ela nem imagina com quem fala. Se soubesse quem sou me trataria diferente e com consideração. Mas não fui eu mesma a responsável pela situação em que me encontro?

                        E pensar que há poucos anos atrás eu era dona Matilde Albuquerque Solano Lopes! E hoje o que sou? Mais uma dona Maria qualquer, sem sobrenome e neste quarto com mais duas, também sem nome. Terá sido castigo ou foi o destino que me levou a tomar tal atitude? Como me lembro bem do palacete da Avenida Dr. Orestes de Almeida! Éramos os senhores então. Minha casa ficava ao lado de outras tão ricas como ela, não mais, isso posso garantir. Os móveis finos brilhavam tanto quanto o chão encerado. O mordomo que nos servia impedia educadamente que os empregados nos molestassem. As crianças eram cuidadas pelas babas e assim eu e Alfredo podíamos freqüentar os salões de bailes, as boates da moda e os jantares em casas de amigos.

                        Eu sabia, e como sabia, das escapulidas de meu marido, mas, para que importar-me? Eu tinha tudo que queria e uma separação só iria transtornar minha vida. Chorava escondida, longe dos filhos e dos empregados mas tenho certeza eles percebiam meu rosto vermelho e inchado. Dizia estar resfriada e continuava naquela ciranda como se fosse feliz. Só eu conhecia o que o desgosto estava me provocando.

                       Quantas vezes em meu quarto não surpreendi os cabelos brancos que aumentavam assustadoramente. Corria até meu fiel cabeleireiro Jaime e ele retocava as raízes. De vez em quando submetia-me a cirurgia plástica e remoçava mais alguns anos. Para Alfredo inventava que ia tirar umas férias conjugais. Ele fingia acreditar e aliviado procurava suas amantes mais despreocupadamente. Dessa forma os anos foram se passando. Meus filhos cresceram. Talvez por serem três homens não tenham sentido tanto a minha falta. Quem sabe se eu houvesse  parido uma menina fosse diferente. Uma mulher entende melhor outra mulher. Mas meninos!? Eles nunca iriam entender o sofrimento da mãe pelas traições do pai. Com a idade eles iam cada vez mais ficando parecidos com Alfredo. Apenas o caçula parecia diferente, mais humano. Eu havia sentido as dores e ele havia ficado com os filhos, pensava amarga. Apesar da mágoa procurava esquecer e esconder a velhice precoce. Lembrava-me constantemente de meus antigos namorados e ficava tentando me imaginar casada com um deles. Impossível! Eu era apaixonada por meu marido. Seu porte atlético, seus cabelos negros e olhos verdes sempre haviam me seduzido.

                        Porem, tudo  tem  um limite. Quando completei quarenta e cinco anos, na festa de meus anos, Alfredo não esperou que a mesma terminasse para me dizer cinicamente:

                        - Agora chega. Já lhe agüentei demais. Meus advogados vão lhe procurar.

                        Deixou-me no meio da festa junto com desconhecidos e desapareceu pela porta da frente abraçado a uma jovem esbelta. Uma garota de cabelos dourados que poderia ser sua filha caçula.

                        A humilhação foi demais. Fiquei parada olhando meus convidados. A maioria eram estranhos e senti que olhavam-me, uns com piedade, outros com zombaria. Atordoada fugi. Deixei o salão de baile e sem pegar nem mesmo o casaco ou qualquer documento corri pela ruas da cidade com meus sapatos de salto e o vestido longo. A saia arrastava pelo asfalto molhado da chuva recente e as lágrimas se confundiam com as gotas que ainda caiam. Segui sem rumo. Um motorista me deu carona e não sei como me vi seguindo por uma estrada escura com um desconhecido. Cheguei até a cidade vizinha. Passei dias vagando de um lado para outro. Quando sentia fome pedia nas portas das casas um pedaço de pão ou um prato de comida.

                        E pensar que em minha casa o desperdício era grande e nunca havíamos negado matar a fome de pedintes! Agora era eu quem mendigava.

                        Rasgada, suja, infeliz, fui confundida com a mais baixa escória. Minhas vestes estavam irreconhecíveis. Alguma alma boa me deu roupas e sapatos, pois os meus havia perdido ou sido roubada, não sei bem, tudo se confunde em minha mente e quando tento reconstituir meus passos sinto nuvens escuras que passam pela minha frente. Lembro-me que cheguei em uma cidade estranha e fui recolhida em um albergue. Lá passei a conviver com outros infelizes como eu. Pensei retornar para minha casa, meu palacete, onde meus empregados me serviriam e me agasalhariam. Cheguei a regressar para minha cidade. O sofrimento era tanto que me pareceu melhor ficar por ali mas ao mesmo tempo afastada deles e quem sabe um dia ser reconhecida por alguém e poder  voltar de cabeça erguida.

                        Na minha ilusão romântica ficava imaginando Alfredo sofrendo pelo meu desaparecimento e vindo me pedir perdão. Doce ilusão! Passando por uma banca de jornais vi a foto de meu marido ao lado da bela jovem. Estavam dando uma festa para comemorar a união dos dois e a partida para a lua de mel. Rodeando-os meus filhos pareciam bem vestidos, alimentados e sorridentes.

                        Foi o golpe final.

                        Não! Eu não era amada. Quem sabe fosse a única culpada. Procurava amargamente descobrir onde estava a minha culpa, o meu erro. Não achava. Se em poucos meses minha família havia desistido de me procurar e Alfredo “casara-se” com o apoio de nossos próprios familiares para que voltar, para que reclamar meus direitos?

                        Meu casamento havia terminado ali, naquela festa? Não! Eu sabia muito bem que ele há muito estava desgastado, acabado. Eu é que não queria reconhecer.

                        Alfredo havia se casado comigo apenas por comodismo e interesse. Ele precisava de uma companheira para se projetar na sociedade e eu lhe servia. Como me iludira pensando ser desejada. A minha carência era tanta que apeguei-me ao primeiro que me jurou amor. Como queria ser importante e querida por eles! Ter alguém que sentisse minha falta e necessitasse de minha presença. No começo de nosso relacionamento tudo havia corrido bem, ele parecia advinhar meus pensamentos. No entanto alguma coisa me parecia artificial, falso, mesmo assim continuei tentando me iludir. Entre tantas jovens havia sido a escolhida impossível ser tudo uma mentira. Pouco à pouco Alfredo foi tirando a máscara e mostrando seu verdadeiro caráter. Hoje uma palavra menos amável, amanhã um gesto menos gentil. Dessa forma perdoando hoje a pequena agressão e tentando compreender suas razões na impaciência demonstrada fui tornando-me submissa e ao mesmo tempo amarga. Parecia-me coisas tão insignificantes que seria implicância reclamar ou mesmo me separar dele por aqueles motivos. Outras, pensava, agüentavam coisas bem mais horríveis como por exemplo maridos alcoólatras ou até que espancavam suas esposas. Alfredo era sutil. Sua forma de agredir era com olhares, gestos e palavras ferinas. Aparentemente possuía uma educação fina. Um “gentleman” como se costuma dizer. Apenas dentro das quatro paredes de nosso quarto ele era “ele” mesmo.  Hoje reconheço como me enganei e não quis ver a realidade. A verdade veio a tona naquele malfadado aniversário. Fugindo procurei a companhia de pessoas tão infelizes e abandonadas quanto eu.

                        Magoada sentia até prazer em me tornar mais uma mendiga no meio de outros.

                        Os cabelos  crescendo, e agora sem pintura, desbotaram e a cor natural foi aparecendo. Estavam totalmente brancos. Não um branco charmoso como fora de minha mãe, não, estavam amarelados, encardidos. O rosto liso deu lugar as marcas e vincos que o transformaram.

                        Ao olhar-me no espelho assustei-me - aquela era eu? - difícil acreditar. Passei a alimentar-me da caridade publica. A vestir-me com o resto das madames e muitas vezes sentei-me ao lado da escadaria da igreja e estendi minha mão para a esmola pingada. No fundo desejava que algum conhecido me visse, reconhecesse e fosse lançar no rosto de minha família.

                        Os meses, os anos foram se passando e a única coisa que consegui foi uma doença grave que me derrubou bem ao lado da igreja onde mendigava. Uma alma caridosa me socorreu e me trouxe até o hospital. Aqui me tratam bem. Até me deram um nome - dona Maria - e cuidam de mim. Onde está minha família? Sei que moram nesta mesma cidade onde hoje me encontro e que meus filhos se formaram. João foi ser advogado como queria o pai para cuidar dos seus negócios. Mário se tornou engenheiro e também trabalha com Alfredo. Paulo é médico. Este foi o único que seguiu seu próprio sonho. Como sei? Oras, segui suas vidas através das noticias dos jornais! Muitas vezes deixei de comer para com os trocados comprar o jornal e assim pude acompanhar o caminhar de meus entes queridos. Soube há alguns dias que Alfredo foi abandonado pela jovem companheira depois de uma ruidosa falência. Se estou feliz? Não! Senti uma dor enorme sufocar-me o peito e o coração que já estava fraco não agüentou. Foi assim que, com a vista escurecida, senti-me desmaiar. Agora estou aqui ansiosa para saber dos meus.

                        A enfermeira parece ser uma boa pessoa quem sabe não me trás o jornal de hoje? Vou pedir-lhe!

                        - Pois não dona Maria, vou buscar para a senhora. Mas espere um pouco o Dr. Paulo já chegou e vai examiná-la.

                        - Dr. Paulo!?

                        Pelos olhos da enferma passou um brilho de esperança.

                     

 

UM SONHO NO INFINITO

 

Por Geraldo José Teixeira

 

Esta noite eu sonhei

Que estava no infinito.

                       Cantava feliz,

             Com o saudoso Barrerito.

Nesta hora vi chegando,

               Tocando a sua violinha,

                O saudoso Zé Carreiro

Com a moda do Ferreirinha.

 

       Em seguida eu também percebi,

O João Paulo e o Leandro,

                De uma festa no céu,

Os dois estavam chegando

Com dois grandes sucessos:

O primeiro foi “lembrança”,

José Fortuna com o violão,

               Estava acompanhando.

  O segundo, “o punhal da vingança”.

 

              O Peão Carreiro cantou

Um sucesso que é “quarto vizinho”.

Foi dizendo o Teixeirinha:

-Deixa-me cantar um pouquinho!

                Ronaldo Viola foi logo

Dizendo umas coisas malucas,

Cantou “o tribunal do amor”

              Com o saudoso Duduca

 

              O Pardinho também veio

Junto com o Tião Carreiro.

Cantaram “o pagode em Brasília”

Insultando o Jacó Primeiro.

Eu achei muito engraçado

    A Nhana e o Cascatinha

Cantando e dançando catira

                   Desafiando o Vieirinha.

 

                  O Zilo também entoou

                   “O milagre do ladrão”.

                   O Tonico acompanhou

       Com “Saudade do Matão”.

                 Um sucesso do passado,

      Parece que isso foi ontem,

    “A pombinha mensageira”,

    Com o saudoso Belmonte.

 

Nessa hora eu fui despertando

Com um grande desespero,

             Pois o Carlos César cantava,

              "O Vai e Vem do Carreiro"

                  Eu acabei de acordar

                Alegre e muito risonho.

              Rezei e despedi de todos.

                    Foi aí que percebi,

                                                               Que tudo era um sonho.

                       

                                 PAI, seu nome é saudade.

                                                

                                                                                                 Por Elaine Ventureli Caldas

 

      Dizem que só damos valor ao que perdemos. Talvez seja verdade. Perdi meu pai há quase dois anos. Ele ia completar noventa anos quando os anjos o vieram buscar para leva-lo para junto do Pai Eterno.

      Quando em nossa companhia costumava “ver” seus defeitos, como se isso competisse a nós, seres imperfeitos, julgar e até condenar. Seus últimos anos foram de aprendizado tanto para mim quanto para ele. Já velho e sentindo o peso dos anos percebeu o fim e, parece, procurou compensar suas muitas ausências, se achegando, procurando mostrar o quanto desejava nossa companhia. A vida é mesmo engraçada, quando vivo não conseguia perceber o quanto me ensinava através de seus atos. Certos ou errados eram lições que me faziam crescer. Foi com ele que aprendi a ser honesta, nunca me aproveitando dos bens alheios porque, como ele dizia:

        --- “O alheio chora o seu dono”.

       Assim, a honestidade que ele havia recebido de seus pais, principalmente sua mãe, procurou nos transmitir.

       Com ele também aprendi a respeitar o próximo sempre cumprimentando aqueles com quem me encontrava, levando um sorriso amigável.

       Quando ouço uma canção no ar, sinto sua voz melodiosa que se identifica com o cantar dos pássaros em nossa serra,  pedacinho da Mantiqueira, envolvendo nosso recanto.

       Estas montanhas nos dão a segurança e a confiança de pertencer a uma terra de amor e solidariedade.

       Segurança essa que recebi do lar bem formado onde nasci e cresci, tendo como chefe, meu saudoso Pai.